Pesquisadores brasileiros participam de estudo internacional que busca novas formas de tratar e curar a hepatite B

Pesquisa reúne instituições de quatro países e pretende identificar mecanismos do vírus e do sistema imunológico que possam abrir caminho para novos medicamentos

Pesquisadores brasileiros integram um projeto científico internacional que pretende avançar na compreensão da hepatite B e encontrar caminhos para desenvolver tratamentos capazes de levar à cura da infecção. O estudo reúne instituições dos Estados Unidos, Brasil, Índia, Senegal e Uganda e combina investigação laboratorial com acompanhamento clínico dos pacientes.

No Brasil, participam do trabalho o Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes, da Universidade Federal do Espírito Santo (Hucam-Ufes), e a Universidade de São Paulo (USP). A coordenação internacional está a cargo da Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos.

A proposta é investigar, em nível celular, por que a infecção pelo vírus da hepatite B apresenta comportamentos diferentes entre os pacientes. Os cientistas também vão analisar a resposta do organismo à infecção e situações de coinfecção pelo vírus da hepatite B e pelo HIV.

Busca por mecanismos que possam levar à cura

A hepatite B crônica ainda não dispõe de uma cura capaz de eliminar completamente o vírus do organismo. Por isso, um dos principais objetivos do projeto é encontrar novos alvos biológicos que possam ser utilizados no desenvolvimento de medicamentos.

A professora Tânia Reuter, do Hucam-Ufes, participa diretamente da pesquisa no Brasil. Segundo ela, os pesquisadores querem compreender quais características do vírus e dos próprios pacientes podem estar relacionadas à evolução da doença e à possibilidade de controle da infecção.

Entre os pontos investigados estão características genéticas que podem oferecer algum grau de proteção contra uma progressão mais rápida da doença. Também serão estudadas partículas do vírus que eventualmente possam funcionar como indicadores para prever a resposta ao tratamento ou apontar caminhos para uma futura cura.

A expectativa é que essas descobertas possam contribuir para o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas, incluindo medicamentos capazes de estimular ou modificar a resposta do sistema imunológico.

Brasil terá 150 participantes no estudo

O consórcio internacional foi criado em 2023, passou por uma interrupção em 2024 e voltou a funcionar no ano seguinte. No Brasil, a pesquisa começou em 2026 e deverá se estender por aproximadamente cinco anos.

Ao todo, serão acompanhados 600 pacientes nos quatro países participantes, durante cerca de quatro anos e meio para cada participante. A previsão é de 150 voluntários em cada país.

A equipe brasileira coordenada por Tânia Reuter ficará responsável pela análise de 75 pacientes. O recrutamento começou em julho e já havia alcançado cerca de 40 participantes. A meta é completar esse grupo até o fim de 2026, embora o prazo previsto pelo projeto para o recrutamento se estenda até meados de 2027.

O acompanhamento prolongado permitirá aos pesquisadores observar a evolução da infecção e relacionar os dados clínicos às características do vírus, dos pacientes e da resposta imunológica.

Doença pode evoluir para cirrose e câncer

A hepatite B é provocada por um vírus que atinge o fígado e pode permanecer durante anos sem provocar sintomas evidentes. Essa característica faz com que muitas pessoas convivam com a infecção sem saber que estão contaminadas.

Nos casos crônicos, a doença pode provocar danos progressivos ao fígado e aumentar o risco de cirrose e câncer hepático. O vírus está entre os principais responsáveis pelo desenvolvimento do hepatocarcinoma, um dos tipos de câncer que podem surgir no fígado.

De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde referentes a 2024, aproximadamente 240 milhões de pessoas vivem no mundo com infecção crônica pelo vírus da hepatite B.

No Brasil, o Ministério da Saúde contabilizou 276,6 mil casos confirmados entre 2000 e 2022.

Além do impacto sobre a saúde individual, a hepatite B continua sendo um dos desafios das políticas internacionais de combate às doenças infecciosas. A Organização Mundial da Saúde estabeleceu como objetivo eliminar as hepatites virais como ameaça à saúde pública até 2030.

Transmissão pode ocorrer pelo sangue e por relações sexuais

O vírus da hepatite B pode ser transmitido por contato com sangue contaminado e por relações sexuais. Também existe o risco de transmissão da mãe para o bebê durante a gestação ou no momento do parto.

A prevenção, portanto, envolve medidas de proteção nas relações sexuais e cuidados para evitar o compartilhamento de objetos que possam ter contato com sangue.

A vacinação continua sendo a principal estratégia de prevenção. No Brasil, a vacina contra a hepatite B está disponível gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para pessoas que ainda não tenham sido imunizadas, independentemente da idade.

Para crianças, o calendário prevê doses desde os primeiros meses de vida. Para adultos que não foram vacinados anteriormente, normalmente são necessárias três doses para completar o esquema.

O uso de preservativos internos ou externos nas relações sexuais e a não utilização compartilhada de objetos perfurocortantes ou de uso pessoal também fazem parte das medidas de prevenção.

Pesquisa pode ajudar a mudar o tratamento da doença

Além de procurar respostas sobre o comportamento do vírus, o estudo pretende estabelecer uma ligação entre a pesquisa básica e a prática médica. Essa integração pode permitir que descobertas feitas em laboratório sejam transformadas em novas estratégias para acompanhar e tratar pacientes.

A expectativa dos pesquisadores é identificar mecanismos capazes de explicar por que algumas pessoas apresentam evolução diferente da infecção e, a partir dessas informações, encontrar possíveis alvos para futuras terapias.

O avanço nessa área é considerado estratégico porque, mesmo com a existência de vacina eficaz e tratamentos capazes de controlar a doença, a hepatite B crônica continua afetando milhões de pessoas e pode provocar complicações graves quando não é diagnosticada e acompanhada adequadamente.

Para os pesquisadores envolvidos, compreender melhor a relação entre o vírus, as características genéticas dos pacientes e o sistema imunológico pode representar um passo importante para que a ciência consiga ir além do controle da doença e avance em direção a tratamentos que possibilitem sua eliminação.

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